domingo, 7 de fevereiro de 2010

Resíduos



Andando pelo lago vejo um grupo de humanos se divertindo. Em bandos, afirmam sua existência com seus ruídos característicos, interferem na natureza jogando seus resíduos no gramado.
Olho para o lago e vejo duas garrafas de plástico boiando como barcos  à deriva. Mais tarde, vejo alguns humanos brincarem com as mesmas garrafas, como se fosse bolas, jogando para cima, rindo, gritando, vociferando como bestas alienadas. 

Ando mais um pouco, sento perto de uma barraquinha. Ao meu lado se encontrava mais um bando de humanos reunidos, agredindo a paisagem com sua instintiva necessidade de afirmarem sua virilidade, bebendo álcool e comendo cadáveres queimados numa churrasqueira improvisada. Ouviam uma pseudomúsica que falava somente sobre um mesmo assunto: o amor. 


Sim, eles acreditam que aquilo que eles conhecem seja mesmo esse tal de amor.

Saio de perto dos humanos, atravesso a rua e sento no gramado mais distante. Começo a pensar sobre a capacidade dos humanos de consumirem lixo cultural. Entendo o porquê após lembrar das duas garrafas boiando no lago. Uma era azul e a outra verde. Um colorido que nada ornamenta o local, mas que serve para entreter os humanos, que brincavam com o mesmo lixo que eles mesmo depositaram na água, com uma felicidade agressiva.

Definitivamente os humanos são resíduos de uma geração infeliz, que não satisfeitos produzem mais resíduos. E estes mesmos resíduos tornam-se lúdicos aos olhos dos pobres humanos.


- Olha, um jet ski! Que legal! - grita um dos humanos que antes se divertia com as garrafas plásticas.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Coincidências

 
 As coincidências são espantosas. Nos deparamos com elas e simplesmente nos espantamos perante a necessidade de serem singulares, firmes e etéreas.
São singulares, pois a chance de ocorrer novamente é mínima e caso não as registramos ficarão para sempre na memória, correndo o risco de tornarem-se mitos, estórias ou pura enganação.
São firmes, pois acontecem de uma maneira brusca, ridiculamente precisa e idiotamente impactante. 
São etéreas, fogem de nossas vistas como areia das mãos.

Não diria que todas as coincidências são boas, ou ruins. Na verdade não são nem boas, nem ruins. 
São coincidências.


sábado, 30 de janeiro de 2010

Plante uma flor

Plante uma flor, antes que seja tarde...

...para admirar.

Plante uma flor antes que seja tarde...

... para plantar.

Plante uma flor antes que seja tarde...

... para ver.

Plante uma flor antes que seja tarde...

...para florescer.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Hoje é um novo dia

É só a Rede Globo colocar aquela vinheta sem-vergonha de final de ano, que "as pessoas" realmente acreditam que "nossos sonhos serão verdade".

Hoje não é um novo dia, de um novo tempo que começou. Não há nada de novo, a não ser os milhares - ou  milhões - que passarão esse fim de ano sem ter o que comer, enquanto os pseudo-burgueses enchem a pança de peru, chester ou qualquer outro tipo de frango envenenado de anabolizantes.

Neste novo dia, as alegrias não serão de todos, mesmo porque uma pequeníssima parcela da população mundial conhece essa palavra - e muito menos no plural.

Os nossos sonhos, meu amigo, não serão verdade, e o futuro não começa no fim de cada ano.
O futuro é o amanhã; ontem já passou e hoje é o presente.

Portanto, a festa até pode ser sua, mas não conte que será nossa, e muito menos de quem quiser, quem vier.



FELIZ 2010!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Prazer

Oh prazer, não me deixes novamente sozinho.
Senti-lo para sempre,
Até o fim de minha existência,
É o que almejo - mas não consigo.

Não me iludas com essa falsa sensação
De ser perene, pois mesmo que saiba
Que tu és efêmero,
Sempre arriscarei tudo para ir ao teu encontro
Mesmo que seja passageiro,

Mesmo que seja fugaz

Mesmo que seja somente por um curto momento.

Prazer
Sensação de estabilidade nessa selva sem dono
Na qual estamos sós.
Não temos nada a que possamos
Pelo menos nos agarrar com uma fé cega
- a própria fé é ilusória.

Precisamos sempre saciar a fome
De nossa serpente, que nos come
As entranhas diariamente
E sem cessar.

E a cada vez que nos submetemos
À fúria da vontade, pensamos
Que chega ao fim...

Mas que fim se essa vontade
É aquilo que nos invade sem pedir,
Querendo tudo de nós,
Mesmo que não seja possível dar.

O impossível
Não existe para a constante
Sede de prazer da serpente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Mentir para quê?

Mentir para quê se tudo o que você deseja esconder está completamente estampado em seu rosto?

Mentir para quê, quando a verdade brota independente dos obstáculos?

Mentir para quê?

Para quê esconder, disfarçar, dissimular, camuflar?

Não existe mais necessidade de ser hipócrita,

Não existe mais idiotas para serem enganados.

Existem aqueles que se deixam enganar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Judith e as bolhas de sabão. Part. I

- Não jogue as bolhas de sabão na calçada, minha filha! - grita a mãe com Judith, que não entende o mal que as bolhas de sabão fariam à sólida camada de cimento a sua frete.